colunista

Lorena Dias

É jornalista e blogueira. É repórter da TV Aratu e escreve para o Mais Região às quartas, a cada duas semanas.

Começa cedo, mal a gente aprende a falar e já estão nos perguntando: “o que você quer ser quando crescer?”. “Grande!”, respondem as crianças mais engraçadinhas. As demais focam nas profissões, das mais variadas possíveis. Nesta semana, levei esse mesmo questionamento aos meus amigos, hoje jovens adultos. As respostas também foram variadas.

"Veterinário", disse o meu amigo jornalista que sempre posta fotos e vídeos do seu cachorrinho no Instagram. "Médico", contou outro amigo jornalista, que não tinha problema algum em cobrir as matérias policiais banhadas em sangue para o jornal onde trabalhava. “Astronauta”, meu amigo engenheiro. "Pediatra, paleontóloga, arqueóloga”, disse a minha amiga musicista. "Mãe", minha primeira amiga dos tempos de escola a ter filho.

Achei engraçado como, por mais que em sua maioria hoje eles atuem em “profissões” diferentes das que sonhavam na infância, as características de quando meus amigos eram criança de alguma forma os acompanham enquanto adultos. Porém é praticamente impossível crescer sem que algo se perca nesse processo.

Fiz aos meus amigos, então, o questionamento que dá título a este texto: “o que você deixou de ser quando cresceu?”. “Deixei de ser desinibido, o que me impede diariamente de fazer várias coisas, porque não quero parecer ridículo”, confessou meu amigo jornalista que sonhava em ser famoso. “Acho que na infância nós somos mais autênticos, sem tanta repressão. Quando crescemos, introjetamos visões e comportamentos que não são nossos de verdade, mas aprendidos pela convivência”, resumiu minha amiga escritora que queria ser espiã.

“Deixei para trás aquela felicidade livre de qualquer coisa, de qualquer opinião”, afirmou minha amiga jornalista que sonhava em ser atriz. “O idealismo ficou pelo caminho. O pé ficou no chão. A idéia de ser feliz aos 25 é bem diferente da felicidade aos 10”, meu amigo jornalista que queria ser médico. “Deixei de acreditar tanto nas pessoas. Ganhei a malícia que a vida ensina e que na infância a gente não tem”, outra amiga jornalista, mas que sonhava em ser cientista. “Hoje penso mais antes de agir e tenho dificuldade em confiar nas pessoas”, minha amiga blogueira de moda que queria ser pediatra.

Quando eu era pequena, falava que não queria crescer. Já era madura o suficiente para perceber o quanto era bom ser criança. O que eu mais gostava era da imaginação livre de amarras, que me levava para qualquer lugar que eu quisesse independentemente de onde eu estivesse. Tenho tanto medo de me perder daquela pequena de cabelos cacheados que, vez ou outra, faço a mim os mesmos questionamentos que fiz aos meus amigos.

Espontaneidade e inocência são duas das principais características que acabam se perdendo no processo de amadurecimento que a vida exige durante o crescer. É claro que alguns aspectos se perdem e outros surgem como forma de proteção, mas me questiono se essas mudanças não nos tiram a leveza da vida.

Crescer é inevitável. E é triste perceber que deixamos para trás muito mais do que os dentes de leite. Mas tem coisas que de vez em quando a gente precisa resgatar. Precisamos voltar a sorrir para desconhecidos. Confiar um pouco mais nas pessoas. Preocupar-nos menos com a opinião delas. Questionar-nos se nossos desejos são realmente nossos. Sonhar. Observar a vida com olhos encantados de quem fez uma descoberta. E nos questionar se a criança que fomos um dia teria orgulho do adulto que somos hoje. 

Comentários

AVISO - Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie através do nosso whatsapp 71 99663.6360 ou do email [email protected] Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal. TERMOS DE USO

mais notícias » Leia também

Publicidade
Publicidade