colunista

Ricardo Matense

É fundador do Instituto Carvalhos de Justiça em Mata de São João. Escreve às terças, a cada duas semanas.
A cabeça pensa onde os pés pisam, nos advertiu Frei Betto ao ensinar que não devemos dissociar a teoria e a prática. Sempre fui crítico dos que argumentam o combate as injustiças sem pisar os pés onde o povo vive e sofre as dores que decorrem dessa mesma injustiça. Outrossim, sempre admirei aqueles que põe o pé na estrada e, com a alma repleta de chão, vão onde povo está e arregaçam as mangas para contribuir com a transformação do mundo, do seu pedaço de mundo.

Em minhas andanças cheguei em Olinda/PE para conhecer uma experiência de advocacy que mudou a história de Aguazinha, uma das localidades mais violentas e também uma das comunidades mais violentadas do estado de Pernambuco. Advocacy é a defesa de direitos, é se colocar como voz dos oprimidos em busca do direito e da justiça. Foi isso o que vi e quero compartilhar.

Fomos recebidos por Siméa Meldrum, que nos contou a sua história e trajetória. Ela e o esposo, Ian Meldrum, são pastores anglicanos e trabalhavam na Catedral do Recife. O ministério foi profundamente marcado pela visita que Siméa realizou, em 1993, ao lixão em Aguazinha. “O cenário era de desolação”, ela conta ainda carregando a emoção de quem viu de perto a profunda miséria dos humanos que sobreviviam comendo lixo. Casas feitas com material ali encontrado serviam de moradia para aproximadamente cinquenta famílias que residiam no local. Siméa nos fala em detalhes: “Aqui haviam crianças com desnutrição de terceiro grau. Morriam quatro adolescentes por semana. À semelhança de outras comunidades do país, o tráfico dominava o local que servia de desova humana e nem a polícia conseguia entrar. Chegamos, havia mau cheiro, abandono, crianças, idosos. Ficamos horrorizados. Alguma coisa precisava ser feita e a gente precisava fazer alguma coisa”. Ela não deixa de relatar o motivo pessoal de sua escolha pelo trabalho em Aguazinha: “Um morador, completamente embriagado, me deu um anel e disse: isso é uma aliança entre você, Deus e este lugar. Dentro de mim ecoava a mensagem que Moisés ouviu no Sinai, segundo o relato do Êxodo: tira as sandálias dos seus pés, o lugar que você está é santo. Deus me mostrou um monte, só que um monte de lixo”.

Era um desafio para a jovem de classe média que, ainda sem saber o que fazer, a primeira coisa que fez foi imergir naquele sofrimento. Domingo à tarde realizava estudos com as crianças e nas horas vagas sentava para ouvir aquelas pessoas. Conheceu de perto a dor dos que se alimentam de lixo e uma moradora lhe contou que havia cozinhado uma mama humana. Era material hospitalar que estava sendo descartado de maneira irregular. Não era um caso isolado de canibalismo, era uma prática comum: “A gente come o que acha”, afirmou uma moradora à reportagem da Folha de São Paulo. Siméa ficou horrorizada, contou o que tinha visto e não imaginava a proporção do que iria acontecer a partir dali. De repente, o seu trabalho ganhou projeção na mídia nacional e internacional denunciando não apenas o canibalismo como também a realidade de descarte irregular do lixo nas cidades brasileiras. Enquanto o mundo inteiro olhava para o lixão de Olinda, a vida e o trabalho de Siméa passaram a ser a dedicação à transformação daquela realidade. Ela se emociona: “Um dia o meu filho de três anos disse: Mamãe, você só cheira a lixo”. 

O contato com a comunidade nos deixa incomodados. O ambiente é ainda marcado por muita pobreza e o mau cheiro dos esgotos a céu aberto e do lixão impregnam o ar. A nuvem escura da fumaça produzida pela combustão do lixo não existe mais, como também passou a nuvem do completo descaso e abandono. É a presença dos irmãos fazendo advocacy que tem buscado garantir o papel do poder público. Mas, ainda há muito a se fazer. O trabalho de transformação exige doação, gastar tempo, conviver. É novamente Siméa quem dispara: precisamos ser o espinho na carne dos governantes, pegar no pé.

O trabalho social hoje é realizado pela ONG Casa do Pai que realiza projetos culturais, esportivos e ações de qualificação profissional. Há um abrigo em tempo integral para crianças em situação de rua, uma creche, uma granja e um galpão onde funciona a Igreja. Não muito distante dali, saindo da comunidade de Aguazinha, uma frase de autor desconhecido, pichada no muro, nos anima a imitar esse belo exemplo: “Tenha fé porque até no lixão nasce flor”. 

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