colunista

Lorena Dias

É apresentadora e repórter da Rádio Metrópole e escreve para o Mais Região às quartas, a cada duas semanas.

Durante três anos eu caminhei pela mesma rua para ir em direção ao trabalho. No início o passo era apressado, para não chegar atrasada, por medo de ser assaltada ou apenas pelo ritmo frenético da rotina cheia de afazeres. Confesso que eu não gostava muito daquela rua. E muito menos da sua fama de "perigosa".

Mas, nos últimos meses, eu acertei meu horário e meu passo. Comecei a caminhar mais devagar e observar as belezas que, com frequência, eu não via. Me apaixonei pela rua. Tirando o risco de assalto, que me deixava sempre em alerta, tratava-se de um lugar maravilhoso para se caminhar.

Adorava ver a pontinha de mar bem no fim da rua, quando eu ainda estava no início da ladeira. Sorria ao observar as flores que despontavam do prédio da esquina, perto da barraca de lanches de Seu Valter, que sempre me desejava um bom dia. Como meus pés já conheciam o caminho, as vezes ainda me dava ao luxo de olhar para o céu durante a caminhada, e agradecia por mais um dia.

Depois da moda do Harlem Shake, um desafio da internet que fazia todo mundo dançar insanamente ao som de uma música eletrônica, agora é a vez do Mannequin Challenge, mais uma moda gravada em vídeo e compartilhada nas redes sociais, mas que desafia os participantes a ficarem completamente parados durante a gravação.

Alguns amigos de rede sociais compartilharam suas versões do desafio e até brincaram que "só assim" para eles pararem um pouco em meio ao ritmo frenético do trabalho e de suas vidas. E isso me preocupa, porque eu sei que é verdade. Até na hora de descansar eles estão fazendo alguma coisa. Ficar em casa sem fazer nada, para a maioria deles, é tempo perdido. Precisam estar sempre em movimento, interagindo, produzindo.

Pois, eu os desafio a parar, de verdade. E observar. Tudo bem, não precisa parar, se não der. Basta reduzir um pouco o passo, parar de fazer tudo no automático. E observar. Quando saímos do ritmo frenético que nos é imposto, conseguimos aproveitar melhor o nosso tempo e, até mesmo, fazer as coisas com maior qualidade.

Eu, pelo menos, sigo no meu desafio. A rua que agora me leva ao novo trabalho é diferente, mas, talvez, tão perigosa quanto a outra. Permaneço atenta à minha segurança, aperto o passo em alguns momentos para não perder o horário, mas não deixo de observar. As senhoras de idade que acordam cedo para fazer caminhada, o casal com roupa de academia numa conversa animada, o cachorro sonolento deitado na calçada e as flores, que eu vejo sempre, por todo lugar que vou.

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