colunista

Lorena Dias

É jornalista e blogueira. É repórter da TV Aratu e escreve para o Mais Região às quartas, a cada duas semanas.
Uma família, marido, esposa e dois filhos, entram no restaurante de comida a quilo. O homem senta em uma das mesas com o filho mais velho. A mulher e a filha mais nova vão para a fila. Comecei a me questionar se ele estava tentando reservar a mesa, mas o restaurante estava vazio e tinham outras mesas para a família.

A mulher volta para a mesa trazendo um prato e o menino começa a comer. O homem não se move da cadeira. A mulher volta para a fila trazendo em seguida mais um prato, o do marido, e retorna à fila. Só depois de servir todos, ela se senta e come.

Fiquei tentando digerir aquela cena, enquanto dava algumas garfadas na minha própria comida. Lembrei de um amigo, que nasceu no mesmo ano que eu, e tem o pensamento antigo de que as mulheres devem servir seus homens, que é isso que ele espera da futura esposa. No dia em que ele disse isso, pensei comigo mesma: "ainda bem que essa mulher não serei eu".

O problema do pensamento do meu amigo e da cena que eu acompanhava sem entender direito, é o dever implícito de que a mulher é responsável pelo bem estar do "seu homem", como se o ato de servi-lo não fosse uma gentileza e, sim, uma de suas funções/obrigações (as quais ela deve exercer com um sorriso no rosto, assim como as garçonetes de estabelecimentos agradáveis).

Estava problematizando tudo isso em minha mente, quando a mesa ao lado da família ficou livre e um casal de amigos se uniu ao grupo. Olhei em volta no restaurante e notei que, de fato, não haviam mesas disponíveis para um grupo de seis pessoas e que, talvez, o cara não tivesse se servido realmente para guardar o lugar da esposa, filhos e amigos.

Dessa história pude perceber duas coisas. A primeira é que eu realmente sou contrária a esse pensamento machista e retrógado que acha bonito as esposas que tratam bem seus maridos através de serviços domésticos, que, na minha humilde opinião, devem ser dividos de formas iguais (sem que pareça que um está fazendo um favor pro outro ou que aquilo seja função de apenas um dos dois).

A segunda é que as reflexões sobre os pensamentos retrógrados são absolutamente válidas, mas não podemos moldar o nosso olhar para que toda situação vire um exemplo que valide nossa opinião. No caso, como mera espectadora de uma cena isolada, não tenho o direito de apontar o dedo para o marido afirmando que ele seria um cara machista sem analisar o possível contexto onde aquela situação estava inserida.

Vale a pena refletir sempre sobre o que pode ser melhorado nesse meio no qual estamos inseridos, por mais igualdade entre homens e mulheres. E, vale mais ainda, ponderar sobre as infinitas possibilidades que existem, antes de fazermos nossos julgamentos e expressarmos nossa opinião.

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