colunista

Bia Ribas

É jornalista, doutora em comunicação e cultura contemporâneas pela UFBA e assessora de comunicação do Projeto Tamar. Escreve uma vez por mês.
A internet hoje é um grande ralo por onde escorre a nossa sociedade líquida. Os dados vão cascata abaixo, borbulham fakes, fatos e fotos, áudios e vídeos gravados ou ao vivo, reais e manipulados, tudo junto e misturado. Neste dilúvio efêmero, contendo vidas em looping, caras e bocas repetidas, sussurros e suspiros, tudinho na sua mão, aqui e agora, é possível encontrar mecanismos para achar ou reter o relevante. Você já pensou no quanto do seu agora persistirá? Tudo meio que está relacionado ao seu investimento para guardar e recuperar a memória que você produz: tempo, espaço, energia, conhecimento e fé.

Verbalize já

O esperado hoje é que você verbalize, compartilhe, opine e indexe, produza conteúdo, e lembre-se: não necessariamente apenas sobre você, seus gostos e desgostos. O ideal é que você interaja, seja visto, mostre. O desejável é que você curta, comente, reaja, poste, reposte, denuncie, apoie, doe, doa a quem doer.  Ajude, mude, transmita, imite, emita, refaça você mesmo, denuncie, patrocine, atraia, impulsione, favorite, recomende, marque, marque, marque sem parar. Quanto mais você marcar, mesmo sendo subliminar, tá valendo na enxurrada das curtidas, reações e interações que sugarão de você. Salve-se quem puder, ou salve o que puder.

Tudo bem. Não faça o esperado, o ideal, o desejável, o necessário, mas aproveite algum verbo que seja útil para melhorar a qualidade dessa vida, e interprete como quiser. Leia textão. Busque e encontrarás. Memento mori.

Derreta limites

A Persistência da Memória é uma pintura famosa, de 1931, que mostra relógios derretidos, segundo o autor, como camembert deixado ao sol. Salvador Dalí imortalizou aqueles seus instantes vividos, que derretem até hoje, dissolvendo os limites entre espaço e tempo.

Quando em 20, 30 anos esquecer do que fez, lembre de sua memória externa. Bote um post-it na porta da geladeira. Pinte como Dalí ou grave seu sentimento nas etiquetas das suas caixas de fotos. Separe por décadas. Quando quiser saber se amou ou odiou aquela noite no bar com fulaninho, volte na linha do tempo, na sua ou na de alguém, escreva as palavras certas na busca. 

Recupere o passado em um toque, sinta todo o frescor do ambiente randômico de imagens aleatórias nas lembranças do Face ou reviva seu arquivo com aquele cheiro único de madeira que te faz viajar no tempo. Sinta-se livre para alimentar e armazenar o que quiser. Ou não. Delete e deixe deletar.

#pensarmais: 
- Pintura: A Persistência da Memória, Salvador Dalí
- Livro: Modernidade Líquida, Zygmunt Bauman
- Site: waybackmachine.org – encontre o que já não existe
- Filme: Amnésia, Christopher Nolan

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